…não há nada neste blog que não tenha a ver com o projecto
para o qual ele foi criado, à excepção da homenagem a Chris Cornell (D.E.P.) e
a Paul Simon por aquilo que está a fazer neste seu último álbum e digressão.
Não é minha intenção pôr por aqui textos, sejam eles
completamente aparvalhados, opinativos, divulgadores ou sejam lá o que forem
(como fazia na minha extinta barraca, onde punha O Que Me Dava Na Telha).
No entanto, depois de ver o Prós e Contras de ontem resolvi
pôr aqui algumas considerações acerca da música Portuguesa, da música feita em
Portugal, da música que se ouve em Portugal.
Toda a minha vida ouvi música Portuguesa, a par com o que se
fazia lá por fora. Tenho vagas recordações de ter os meus 3 ou 4 anos e andar a
cantar num inglês assolapado as musicas da minha banda preferida à altura, os
Beatles.
Lembro-me do meu irmão, 18 anos mais velho que eu chegar a
casa com discos de Led Zeppelin, Deep Purple, Whitesnake, Pink Floyd e passar
dias a pôr os discos no gira-discos e beber aquilo tudo.
Lembro-me dos discos da Amália (que ainda tenho) e do Paco
Bandeira, do Fernando Tordo, do Paulo de Carvalho, do Quarteto 1111, dos discos
de música clássica que ouvia em "repeat".
Lembro-me do boom do rock Português, que foi quase uma obra
do Sr. Júlio Isidro, do Rui Veloso, dos UHF, dos Taxi, dos GNR, dos Rádio Macau,
os Xutos & Pontapes…
No meio disto tudo havia sempre aquela história de ouvir um
disco e dizer, de caras, mesmo que não se conhecesse o artista e este estivesse
a cantar noutra língua, que o disco era Português. Fruto talvez das limitadas
tecnologias da época, mas era uma realidade. Felizmente hoje em dia já não é
assim, e aquilo que se vai gravando por cá está ao mesmo nível daquilo que se
faz lá fora, o que melhora muito a experiência auditiva.
Sendo eu bastante ecléctico em termos de gostos musicais, a
verdade é que me liguei mais ao rock, nas suas diversas vertentes, desde o
rock´n´roll até géneros mais agressivos, e à música clássica, simplesmente
porque eram as músicas que mais frequentemente me tocavam a alma. Mas isto quer
dizer que as minhas referências se centravam lá fora e sempre achei que faltava
“aquele” bocadinho à música Portuguesa para poder sair de cá. Ninguém lá fora
estava curioso por ouvir bandas clones de Whitesnake a cantar numa língua desconhecida quando havia uns Whitesnake. Éramos
auto-limitados porque queríamos concorrer com o que de melhor se fazia lá fora
nos termos deles. Basicamente, além da língua, e muitas vezes nem isso, éramos
bandas de um mercado pequenino que não tinham condições mínimas para se afirmar
no mundo. As excepções (a maior das quais a Amália, sem dúvida) reforçavam
apenas o que eu pensava.
Ainda assim, havia uma outra cultura, havia menos eventos, e
quando havia um concerto de uma banda, por norma, as casas enchiam.
Hoje há excesso de oferta e pouca apetência das gerações
mais novas que se dividem em múltiplos eventos todos os dias.
Em meados da década de 90, quando comecei a tocar em bares,
era normal uma banda levar um cachet de 60 contos (para os mais distraídos ou
novos, €300) para tocar num bar, e já era negociado com a inclusão de jantares
e bebidas. Se não houvesse jantares e bebidas o cachet aumentava. Hoje,
passados 20 anos, um cachet destes para uma banda de bares é quase uma miragem,
com as casas a pagar entre os €200 e os €250, quando oferecem tanto. E bandas
de originais? Bem essas tocam de borla, ou quase, porque quando uma banda de originais
vai a um bar, este fica às moscas! É sobretudo por isto que não toco mais ao
vivo.
No principio dos XXL Blues fomos tocar a um bar onde nos ofereceram €100
de cachet. Aceitamos porque precisávamos de rodar a banda ao vivo e porque o
dono da casa não sabia como a coisa ia correr. Aparentemente correu bem e
falaram de novo connosco para lá ir, e, contra a minha vontade, o resto do
pessoal aceitou voltar lá mais uma vez pêlos mesmos €100. E fomos, correu bem e
à terceira vez que fomos contactados para lá voltar eu disse logo que sim, mas
dependia do cachet. Ofereceram os 100, eu pedi 200. Insistiram nos 100, eu pedi
250. Não voltamos lá. E não estamos a falar de uma casa vazia, às moscas,
estamos a falar de uma casa onde o álcool corria como o leite e mel na terra
prometida e que estava tão apinhada de gente que tinha a cara de um gajo a dez centímetros
do meu microfone. Quando alguém saltava, todos saltavam. Ou seja, há aqui
também uma grande dose de oportunismo por parte dos donos dos bares com música
ao vivo e uma degradação do papel do músico.
Cada vez que vou tocar tenho que deslocar o meu
amplificador, que é uma torradeira a válvulas que custou €1300, tenho de levar
duas guitarras, cada uma delas a valer mais de €600, mais processadores de
efeitos, cabos, colunas, microfones e subo para o palco com 30 anos de estudo
do instrumento às costas. Por norma saio de casa ao principio da tarde e chego
a casa no raiar da aurora. Aparentemente tudo isto vale apenas €20 para a
maioria dos donos dos bares. Só para pôr a coisa em perspectiva, uma única válvula
danificada custa dois cachets destes. Os €20 não pagam as cordas para as duas
guitarras. Se tirarmos o jantar aos €20 sobra o quê? Vale a pena ir tocar
nestas condições?
Perdeu-se a cultura de descobrir algo novo. Mas muitas vezes
também tem a ver com o público alvo…
…um bar de rock que quer pôr música ao vivo sabe que a
maior parte do seu público não será jovem. Porem bandas a tocar durante a
semana a começar à meia-noite ou 1 da manhã (hey!) faz com que o bar esteja
vazio. Mas, se calhar, só se calhar, se estes bares pusessem as bandas a tocar
às 21:30 tinham casa cheia. Há uma enorme diferença entre sair a uma
quarta-feira, depois do jantar, ir beber um café e uns digestivos com os amigos
e curtir um show de rock, voltar para casa por volta das 23:00 e ir trabalhar
no dia a seguir, a sair de um bar às 3 da manhã (hey!) para acordar às seis, ir
pôr miúdos à escola e zarpar para o trabalho.
Talvez estes concertos a horas mais decentes até abrissem
mais as portas a bandas originais e se fizesse ouvir, ao vivo, muita coisa
interessante que é feita por cá mas que não chega a ouvidos de gente.
Hoje em dia já nenhum músico está interessado em editar
CD´s. Já ninguém os ouve e qualquer dia são objectos de culto, como os vinis. Qualquer
pessoa põe as suas musicas em canais de distribuição digital gratuitamente, e
as pessoas podem até comprar faixa a faixa, em vez de um álbum inteiro.
Antigamente os concertos serviam para promover os CD´s, hoje um CD serve para
promover concertos junto da geração que contrata os artistas e que ainda está
muito apegada ao objecto físico. Daqui a uns anos o suporte físico tornar-se-á
irrelevante e para os músicos sobrarão as vendas digitais e os concertos ao vivo.
Mas nem todos conseguem alcançar o sucesso, independentemente da qualidade que
têm. Normalmente porque não são ouvidos…
Surpreende-me, pois, ver esta onda que se forma à volta do
Salvador. Acho que a ele, conhecendo certamente esta realidade tão bem, ou se
calhar até melhor que eu, também se surpreende.
Podem vir programas de televisão com debates falar disto e
daquilo, mas o panorama não se vai alterar e quando passar esta euforia,
ninguém se vai lembrar disto. A RTP, a SIC e a TVI enchem as tardes de
fim-de-semana com artistas de qualidade duvidosa (porque há qualidade em todos
os géneros musicais, mas também há emplastros) que lá estão porque alguém
recebe uns euros (tanto quando me foi dado a saber, cerca de €75, mas já deve
ter subido a tarifa entretanto) para os pôr lá, e eles pagam de bom grado
porque é com essas aparições que apanham os bailaricos nas aldeias, nas festas
de Verão. Depois há um outro circuito, para artistas mais consagrados e com
cachets decentes, onde é difícil entrar. E depois…
…depois há gajos que gostam mesmo da música, que já perderam
as esperanças de serem “rock stars” e que já não estão para se chatear e que
podiam combinar uma noite de copos com os amigos num bar qualquer…
…mas que preferem combinar uma noite de copos no estúdio e
aproveitam para tocar o que lhes apetece, que tocam ao vivo quando calha,
porque as perspectivas são raras ou inexistentes e que sabem que, apesar da
euforia momentânea, nada vai mudar, porque as rádios pequenas passam música
pimba portuguesa, e as grandes passam musica pimba estrangeira…




